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Nem toda gravidez é a mesma, como bem sabe Jecita Pereira Clares, que não teve intercorrências no nascimento do primeiro filho e, no segundo, enfrentou um parto prematuro. Com 25 semanas, Benjamin nasceu com 750 gramas e Jecita viveu a montanha-russa emocional comum a mães com filhos internados em unidades de terapia intensiva.

Quando Radis conversou com ela na sala do Banco de Leite do Hospital Regional de Taguatinga (HRT), no Distrito Federal, ela trazia Benjamin ao peito, em posição canguru. O contato pele a pele junto à mãe traz inúmeros benefícios para ambos — entre eles, o estímulo à amamentação. “É outra experiência. Eu nem conhecia esse mundo do prematuro: conheci vivendo”, disse, sorrindo. 

Benjamin foi alimentado por sonda com o leite fornecido pelo Banco de Leite Humano (BHL) do Hospital de Taguatinga, já que Jecita ainda não estava produzindo leite. Benjamin foi alimentado por sonda com o leite fornecido pelo Banco de Leite Humano (BHL) do Hospital de Taguatinga, já que Jecita ainda não estava produzindo leite. A mãe fazia movimentos gentis na boquinha do bebê para estimular a pega no mamilo. De 1 ml de leite materno que Benjamin recebeu ao nascer, ele estava consumindo 35 ml por dia após 73 dias de internação. 

Tudo teria sido mais difícil, assume Jecita, sem o apoio da equipe multiprofissional. “Para mim é como se elas fossem o meu corpo, elas dão o que eu não posso dar. Se não fosse esse trabalho do BHL, meu filho não estaria vivo”, reconheceu.

Na maternidade, Jecita conheceu o trabalho dos profissionais de saúde ligados à Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH), uma ação estratégica do Ministério da Saúde reconhecida em todo o mundo por contribuir para a redução dos indicadores de mortalidade e morbidade neonatal e na diminuição da incidência de doenças crônicas não transmissíveis. Ao todo, a rede tem 227 bancos de leite humano (BLH) que atuam muito além da coleta, do processamento e da distribuição de leite a bebês prematuros e de baixo peso. São casas de apoio à amamentação que têm muita história para contar em seus 40 anos a serem completados em 2024.

Jecita, mãe de Benjamin, 73 dias

Jecita Pereira Clares teve duas gestações, com experiências parecidas, e um percurso de volta para casa diferente. Na primeira delas, conseguiu amamentar seu filho, hoje com 15 anos, mas não conseguiu doar leite. “Tenho esperança de que com o Benjamin vindo para o peito, eu tenha a produção que eu tive antes para poder doar”, observou.

Um prematuro extremo necessita de cuidado intensivo e Jecita teve que aprender muita coisa nessa vivência de UTI. “A gente está acostumado a pegar um menino já grande. Ele é bem pequenininho, até a cor da pele dele era diferente. Eu fiquei meio atordoada, não sabia o que fazer”, relembra, na antessala do HRT. 

Alex, pai de Benjamin, também fez canguru, e segundo Jecita, estava assimilando o processo de ter um bebê frágil. “Eu falei para ele arrumar a casa que nós estamos indo embora. Está tudo pronto só esperando a gente”, brincou, ansiosa pela alta.

Rede pioneira

O primeiro BLH surgiu em um contexto de desmame precoce e incentivo ao uso de fórmulas artificiais, que eram tidas como superiores ao leite materno. Criado em 1943, o BLH do atual Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), da Fiocruz, até 1984 atendia apenas casos especiais. Foi quando começou a ser implementado um novo paradigma operacional que permitiu a expansão dos bancos de leite no país e consolidou a primeira rede no SUS — e fez do Distrito Federal o único lugar no mundo a conquistar autossuficiência em leite materno e o único no país a ter uma legislação que regula essa política.

João Aprígio Guerra de Almeida foi a força motriz de todo o processo que culminou no estabelecimento desse novo paradigma para os Bancos de Leite Humano. Engenheiro de alimentos, Aprígio contou à Radis que, na década de 80, a mortalidade infantil no país era elevada e o aleitamento materno já era reconhecido como uma ação eficaz para atenuar e reduzir o problema, o que foi decisivo para fortalecer a expansão do modelo brasileiro de BLHs.

João Aprígio aponta que um diferencial da rede foi trazer a mulher para o centro da cena do BLH. — Foto: Eduardo de Oliveira.
João Aprígio aponta que um diferencial da rede foi trazer a mulher para o centro da cena do BLH. — Foto: Eduardo de Oliveira.

O IFF/Fiocruz foi a semente da rBLH. Até a década de 80, havia apenas cinco unidades. Aprígio revela que, nesta época, surgiu a percepção de que o banco de leite não poderia ser uma leiteria humana. “E a mulher? Onde ela ficava nesse processo? Poder trazer a mulher para o centro da cena do banco de leite humano, percebê-la com uma perspectiva mais compreensiva, foi outro grande diferencial”, observou, ao comentar que a mudança de paradigma fez da mulher a protagonista da amamentação e o bebê o beneficiário do alimento.

De acordo com Aprígio, o modelo brasileiro se alicerça no forte referencial do aleitamento materno e da tecnologia de alimentos, que amplia a segurança do que se faz dentro do banco e a oportunidade de uso de suas funcionalidades como recurso terapêutico. “Não é só transferir o modelo, mas transferir princípios em uma mesma base de rigor técnico e apoiar cada local respeitando as suas peculiaridades”, disse à Radis. Hoje é coordenador do Programa Iberoamericano de BLH e da Rede Global de Bancos de Leite Humano. Em 2020, Aprígio recebeu o Prêmio Dr. Lee Jong Wook, concedido anualmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a indivíduos ou instituições que contribuíram com importantes avanços para a saúde pública.

O Grupo Técnico de BLHs formalizou, em 1984, o início do processo de institucionalização de experiências até então isoladas; e, em 1987, surgiu o primeiro convênio para que o BLH do IFF se tornasse o Centro de Referência Nacional. Os bancos passaram a ser levados para o resto do Brasil.

A cooperação social foi ampliada para outros países. Aos poucos, a rede local se tornou uma rede global. Depois dos municípios brasileiros, atravessou fronteiras e hoje está presente em países da América Latina, do Caribe, da Península Ibérica, da África e do Brics, grupo composto por Rússia, Índia, China e África do Sul, além do Brasil. O trabalho da Rede BLH foi reconhecido como o que mais contribuiu para a redução da mortalidade infantil no mundo na década de 1990 e a rede foi agraciada com o Prêmio Sasakawa de Saúde, em 2001.

Luciane, mãe de Ruan Miguel, 15 dias

Luciane Mendes da Silva desconhecia a rBLH até descobrir que seria mãe. E isso foi bem rápido. Um pico de pressão a levou ao médico e uma semana se passou entre a descoberta da gravidez, o parto e o nascimento prematuro de Ruan Miguel. Ela sorriu ao dizer que, com 43 anos e três filhos, achava que sua gravidez era um “mioma”. “Pela minha cabeça passa agradecimento, choro e emoção”, falou ao olhar para Ruan Miguel.

No Alojamento Conjunto do Hospital de Tabatinga (HRT), ela dividia o espaço com outras mães que esperavam também a hora de ir para casa. Luciane mora em Planaltina de Goiás, a 60 km do DF, e não sabia quando seria o momento da alta da maternidade. Confessou que o marido, Ronaldo de Lima, também estava assustado com a chegada do bebê. “Ele está desempregado, mas vai dar tudo certo”.  

Quando Radis esteve no hospital, no início de outubro, Luciane não tinha conseguido produzir leite. Ordenhava vez por outra 10 ml e mantinha o sonho de amamentar o filho. Ruan Miguel recebia o leite doado em um copinho. “Peço a Deus que abençoe a cada mãe que tira leite e que está dando para meu filho. As meninas do banco são uns anjos. Elas dão atenção redobrada. Sem a ajuda delas não dá para ficar aqui não. Elas me ensinam, têm muita calma”, falou. 

Política pública

Danielle Aparecida da Silva é coordenadora do Centro de Referência Nacional para Bancos de Leite Humano (IFF/Fiocruz), responsável pelas ações estratégicas e a normalização dos procedimentos de toda a rede. Ela falou à Radis que o modelo brasileiro difere dos demais por considerar o leite humano como alimento funcional, realizando o processamento e o controle de qualidade baseado na tecnologia de alimentos e visando atender às necessidades específicas de cada receptor. 

Ela destacou também a importância de a rBLH desenvolver ações na atenção ao aleitamento materno, apoiando a mulher em fase de lactação. “Os bancos de leite recebem a mulher esclarecendo desde pequenas dúvidas e atendendo intercorrências comuns neste período”, explicou.

Engenheira de alimentos, Danielle ressaltou que o compartilhamento de conhecimento foi e continua sendo o motor para a expansão da rede. Se, antes, para implantar novas unidades os gestores e equipe iam aos municípios para capacitação técnica, atualmente há um sistema de treinamento e certificação online, desenvolvido por profissionais da rBLH.

Antonio Flávio Meirelles, diretor do IFF, observou à Radis que a rede é exemplo de uma ação local que pode ser capilarizada para o país e se transformar em uma rede internacional de fortalecimento do aleitamento materno. “É uma ação diplomática do nosso país, rumo a alcançar os objetivos da Agenda 2030, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, afirmou.

Dentro dos ODS, a amamentação está vinculada à boa nutrição, à segurança alimentar e à redução de desigualdades e prevê a meta de 70% de aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses. Mariane Curado, nutricionista, coordenadora da rBLH no DF, salienta que, com o trabalho estruturado da rede, o índice no DF chega a 51,1% de aleitamento materno exclusivo. No Brasil, o país opera com déficit estimado, em termos médios, na ordem de 45%. [Leia matéria no site]

Dados disponíveis

Em todos os estados e no Distrito Federal há pelo menos uma unidade de banco de leite. Entre 2000 e 2022, o número passou de 109 para 227, crescendo 108%. A maior parte delas está instalada no Sudeste, com 93 unidades, que corresponde a 36% do total. Já o Nordeste, com 53, responde por quase 22%; o Centro-Oeste, com 27 unidades (18%); o Sul, com 38 (17%); e o Norte, com 16 (6%). Há, ainda, 234 postos de coleta (PCL) integrados à rede. 

Em 22 anos, a doação de 3 milhões de mulheres resultou em 3,4 milhões de litros coletados e beneficiou 3,5 milhões de recém-nascidos. Pelas salas de apoio à amamentação, 37 milhões de mulheres foram acolhidas e orientadas. Todos os dados estão disponíveis no site da rBLH. Em 2006, um sistema criado em parceria com o DataSUS informatizou todo o processo e passou a agregar vários indicadores por cidade e região. 

O controle do processamento do leite, que antes era manual, também foi informatizado. “Tudo era anotado no que carinhosamente a gente chamava de ‘livrão’. Qual leite que chegou, qual seria processado, qual o volume e suas características”, lembrou Danielle. Ao lado do seu nome, as doadoras escrevem no potinho a data e a hora da primeira coleta. “Vez por outra, a gente recebe recadinhos carinhosos”, disse Danielle, mostrando um pote onde estava escrito “Doado com amor”. 

Um pote pode parecer pouco, mas não é. Para a rBLH, qualquer volume importa. Isso porque um pote de 200 ml de leite doado pode alimentar até 10 bebês prematuros ou de baixo peso.

Um pote de 200 ml de leite doado pode alimentar até 10 bebês prematuros ou de baixo peso.

Os bancos de leite humano desenvolvem ações de coleta, pasteurização e distribuição de leite humano, com qualidade certificada. — Foto: Eduardo de Oliveira.
Os bancos de leite humano desenvolvem ações de coleta, pasteurização e distribuição de leite humano, com qualidade certificada. — Foto: Eduardo de Oliveira.

Inovação de ponta

O desenvolvimento de tecnologias e a inovação marcam a história da Rede BLH brasileira. Franz Novak foi o responsável técnico pelo Laboratório de Controle de Qualidade do BLH e do Centro Nacional de Referência para BLH. “Começamos do zero absoluto”, disse no seminário de 80 anos do IFF, realizado no Rio de Janeiro, no início de outubro. “O BLH une duas partes que nunca deveriam estar separadas, uma vez que se completam em suas atividades. É o BLH que pratica, promove e protege o aleitamento materno”, afirmou. 

Franz contou que se orgulha de diversas soluções tecnológicas criativas que impulsionaram a consolidação da política. Entre elas, destacou a padronização da pasteurização do Leite Humano Ordenhado (LHO) e o controle de qualidade, com metodologias simples, baratas e eficazes, entre tantas outras que foram concebidas pela equipe ao longo da história da rede.  

Em outubro de 2023, foi firmado um acordo de cooperação entre o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e o Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT) para o desenvolvimento de tecnologias que aproveitem ao máximo o potencial nutritivo do leite materno doado. Além disso, foi lançado um curso de especialização em aleitamento materno para o SUS e para a Rede de Bancos de Leite Humano da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (rBLH – CPLP). Na prática, o Brasil transfere os princípios da sua tecnologia e ajuda os países a adaptá-los à realidade local, numa agenda que envolve Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o Ministério da Saúde e a Fiocruz. 

Leite humano não é mercadoria

O leite humano é bom para a saúde da mãe e do bebê e não sobrecarrega o sistema de atenção à saúde pública. O alimento é doado e coletado de forma gratuita. Miriam Santos, coordenadora do Centro Oeste da rBLH e vice-presidente da Comissão Nacional de Bancos de Leite, entende que a doação de leite materno é o primeiro ato de solidariedade que as mulheres ensinam para os seus filhos. 

“Se virar mercadoria, como ocorre em alguns países, como vai ficar a alimentação do filho dessa mulher? O que existia no modelo anterior gerava uma angústia muito grande porque às vezes a mulher deixava de amamentar para poder ir ao banco encher vários potes e pegar a cesta de alimentos em troca”, lembrou, fazendo referência ao modelo de BLH que perdurou entre 1943 e 1984.

A pediatra Marlene Roque Assumpção sabe bem do que Miriam está falando. Como residente, ela viu a transformação do antigo modelo destinado a atender casos especiais para a política pública reconhecida internacionalmente. Marlene chegou ao BLH do IFF em 1977. Na época, as unidades eram comparadas a leiterias humanas por estabelecer uma relação comercial de compra e venda de um alimento que tinha propriedades farmacológicas.

“O leite era doado em troca de um pecúlio”, lembrou no seminário que comemorou os 80 anos do BLH do IFF. As doadoras, em sua maioria, eram mulheres pobres que viam na doação do leite uma forma de sustento. Além disso, a maior parte das doações eram destinadas para receptores externos. 

Marlene contou que as mulheres com melhores condições pagavam “alguma coisa” pelo leite doado e o dinheiro era revertido na compra de enxovais e bolsas de alimentos dirigidas às mães mais pobres. “Quanto maior a coleta, maior era a recompensa, o que algumas vezes gerava briga e comentários entre as doadoras. Algumas eram acusadas de misturar água para aumentar o volume”, disse a pediatra à Radis.

O leite era distribuído preferencialmente na forma de produto cru, sem receber qualquer tipo de tratamento. “O máximo que a gente fazia era colocar na geladeira, nem freezer era”, frisou a pediatra. Hoje, o leite humano é pasteurizado e congelado, para evitar o perigo de contaminação, e distribuído com qualidade certificada.

Na mudança para esse novo BLH, o leite passa a ser entendido como alimento completo. Um “alimento remédio” e um “alimento vida”, como disse Marlene. “Não existe outro alimento padrão ouro para o bebê”, constatou. Não à toa, a médica afirmou que o mês que simboliza a campanha de incentivo à amamentação é o Agosto Dourado.

A sensibilização à doação ocorre também em 19 de maio, na comemoração do Dia Nacional de Doação de Leite Humano. “Além das inúmeras propriedades que possui, o leite humano é o único alimento que não distingue classe, etnia, religião ou origem. Ele vem de uma mãe que doa, mãe que tem excedente, mãe que quer ajudar outras mães e crianças. É um leite universal”, observou a pediatra.

Para Cecy Dunshee de Abranches, médica do IFF, psiquiatra da infância e adolescência e terapeuta de família, a amamentação é uma “alimentação afetiva” e a primeira grande relação pós-parto. Com a filha na creche do IFF,  a médica disse que amamentou e doou leite. “O que sobrava doava para o BLH”, lembrou.

O maior contato entre mãe e bebê é um aliado no estímulo ao aleitamento materno. Na pandemia, com as mães em casa e mais livres para alimentar os bebês em livre demanda, houve doação excedente de leite humano para a rBLH. 

Raquel, mãe de Beatriz, 11 dias

Raquel Gitirana Torquato dos Santos chegou ao BLH do HRT, em Brasília, sem marcar hora. Trazia a filha Beatriz de 11 dias nos braços e procurou ajuda para tentar resolver uma intercorrência na amamentação. “Ela fica pegando o peito. Falaram que as meninas [do BLH] são bem acolhedoras e poderiam me ajudar para ver se a gente consegue reverter essa situação”. 

A família conheceu o serviço do BLH no hospital particular em que Beatriz nasceu. Antes da gravidez, Gabriel, pai de Beatriz, contou que pouco conhecia sobre amamentação e doação de leite humano. “Quando descobrimos a gravidez, começamos a pesquisar. A gente já sabia que ia ser um momento que poderia ser difícil e que eu precisaria dar um suporte para minha esposa e para minha filha”, afirmou.

Tudo pela amamentação

Simone Saldivia é técnica de nutrição e trabalha com consultoria de amamentação e no controle de qualidade do BLH do Hospital de Clínicas, de Porto Alegre. Ela contou à Radis que a equipe do BLH atua nas áreas de internação obstétrica e pediátrica, mas o leite coletado é utilizado preferencialmente pelos bebês internados na UTI neonatal. Em 2022, foram feitos 14 mil atendimentos individuais e cerca de 13 mil doadoras alimentaram mais de 10 mil bebês. 

“Quando as mães vão embora, é nítido o sentimento de gratidão que elas transferem a nós pelo trabalho, por termos proporcionado a manutenção da lactação no período de internação, que é um grande desafio”, disse. Simone revelou que muitas pessoas ainda desconhecem que o BLH é uma casa de apoio à amamentação e que também presta consultoria gratuita às mães com bebês sadios com dificuldade em amamentar. 

Formada há 20 anos, a nutricionista Juliana Neri Ferreira trabalha no BLH do Hospital Regional de Sobradinho (HRS), no DF.  Ela disse à Radis que “universo se abriu” quando entrou no BLH. “O BLH aborda a área da clínica, assistência, higiene e tecnologia de alimentos. São várias áreas da nutrição em um lugar só”, afirmou. 

Quem vivencia as histórias das mulheres com a amamentação e a evolução das crianças se torna um promotor da prática, ressaltou Juliana. “A gente precisa também empoderar a mulher. É um trabalho de formiguinha”.

Há dez anos trabalhando no HRS, a enfermeira Josele Gonçalves lamenta que ainda exista uma cultura contra a amamentação. “A gente rema contra a maré o tempo todo. Além da indústria, que é muito forte, tem a propaganda e a influência da família. As pessoas compram a fórmula ou a mamadeira de bico e acham que isso é o correto”, relatou.

Para ela, amamentar não é um ato isolado e é importante conscientizar a rede de apoio da puérpera. “É um trabalho conjunto: a doação é resultado de todo um trabalho realizado com a amamentação”, reforçou, ao dizer que tem orgulho em ajudar as mães. “Vejo mães que entram chorando e saem sorrindo. Isso motiva a gente todos os dias”.

Vitória, mãe de Aylla Sophia, 10 dias

Vitória Silva os Santos ainda não tinha registrado Aylla Sophia, que nasceu com 32 semanas e 1kg e 690 gramas. Vitória teve descolamento da placenta. A neném já mama no peito e os momentos mais duros ficaram um pouco para trás. “A pior parte foi vê-la nos equipamentos e não poder pegar”, disse à Radis. O suporte foi necessário para manter Aylla estável enquanto estava na UTI do HRT.

Nos dez primeiros dias de vida, Aylla recebeu o leite do BHL. Quando Vitória conversou com Radis, no início de outubro, Vitória já tinha a expectativa de alta em cinco dias. A mãe foi orientada na maternidade sobre como deveria estimular a mama para alimentar a filha e tirar o leite. “Minha expectativa de vida é dar um bom estudo para ela”, observou.

Cada pote faz diferença

Isília Aparecida Silva, professora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), ressaltou que “as mulheres estão praticamente sozinhas com seu potencial de produção de leite e precisam ser apoiadas”. Segundo a médica, a doação de leite não pode ser centrada na mulher potencialmente doadora e deve envolver toda a sociedade.

Já Sônia Venâncio, coordenadora de Saúde da Criança e do Adolescente do Ministério da Saúde, salientou que é preciso fortalecer a articulação em rede. “Se a gente tiver uma articulação da atenção primária com as maternidades e com os bancos de leite, é possível potencializar todo esse esforço”, observou.

Renara Guedes Araújo, assessora técnica para as ações de aleitamento materno da Coordenação de Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente do Ministério da Saúde, afirmou que a rBLH deveria estar presente em todos os locais do país. “Para que a gente chegue a isso, é preciso sensibilizar as famílias sobre a importância da amamentação e da doação de leite humano para que, quem amamenta, doe o excedente”, afirmou. 

Ela é mãe de quatro e o caçula Mateus nasceu com 37 semanas, com uma disfunção respiratória transitória. Renara doou leite anteriormente e achou que a amamentação de Mateus seria tranquila. Não foi. “Um dia tive que tirar 2 ml de leite e não saía nada”, lembrou à Radis. Na UTI, Mateus recebeu o leite do BLH. Depois em casa, ficou em aleitamento exclusivo e a mãe se fez doadora. “Percebi o quanto cada ml faz diferença para a recuperação de um recém-nascido internado”, relembrou. 

Diferentes tipos de leite

O tipo e a quantidade de leite materno produzido pelo corpo da mulher são ideais e adequados para cada fase de vida do bebê. “Nenhuma fórmula industrializada consegue repetir as propriedades do leite humano”, disse a nutricionista Mariane Curado, coordenadora da rBLH no DF. 

A necessidade de alimento varia à medida que o bebê cresce e é alterada na prematuridade. A primeira fase do leite é o colostro e, em caso de bebê a termo [que nasce entre 37 e 42 semanas], dura em torno de 7 a 10 dias. Na prematuridade, que ocorre antes de 37 semanas, essa característica pode se estender até 30 dias. “Esse leite tem maior teor de imunoglobulina e de substâncias de defesas importantes para o bebê”, salienta. Segundo ela, no Brasil, o leite doado é pasteurizado e analisado separadamente, sendo ajustado às necessidades e ao estado clínico do bebê que vai recebê-lo. Ela garante que esse processo permite maior rastreabilidade de cada produto. “Sabemos quem é a doadora de cada pote, o dia que foi feita a coleta, o dia que o filho nasceu e muito mais. Se eu misturar tudo, eu perco esse controle”, falou à Radis.

Marinez, mãe de Giulia, 2 dias

Marinez Nunes Souza alimentava a pequena Giulia, nascida há dois dias, no Alojamento Conjunto do HRS, em Brasília. Junto com Giulia, cinco outros bebês a termo, nascidos entre entre 37 e 42 semanas, esperavam a alta hospitalar. Ali, as mães foram orientadas sobre como aleitar os bebês. Sem conseguir extrair seu leite, Marinez ouvia atenta as explicações da lactarista. “Eu não teria conseguido fazer isso sozinha. Desde ontem que estou na luta. Agora ela está fazendo movimento”, apontou.

No início, Giulia recebeu leite do BLH e aos poucos foi se ajustando ao seio da mãe. “A gente não deseja, mas é muito bom ter leite doado quando precisa”. Marinez disse que, se tiver leite suficiente, por que não doar? Felipe, pai de Giulia, acompanhava com atenção as instruções. Ele conhecia o BLH por meio de campanhas e teve uma aula prática acompanhando mãe e filha. À Radis, ele garantiu que iria apoiar a mulher quando já estiverem em casa.

Para se tornar doadora, a mulher deve ligar para o banco de leite do IFF/Fiocruz, no número gratuito 0800 026 8877, e se cadastrar.

https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/aleitamento-materno/as-mulheres-sao-protagonistas/
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