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Este texto foi produzido em uma oficina com comunicadores populares selecionados pelo edital “Como se proteger do coronavírus — Programa de Reportagem”, uma parceria entre o Observatório de Favelas e a Fiocruz. Saiba mais aqui.

A vacinação é um dos métodos mais importantes de prevenção contra agentes infecciosos como vírus e bactérias, que podem afetar seriamente a saúde das pessoas, podendo levar à morte. Portanto, manter o esquema vacinal em dia é uma ótima forma de se prevenir contra diversos tipos de doenças graves. Apesar da importância desse ato, nem todas as pessoas comparecem às Unidades Básicas de Saúde (UBS) para tomar suas vacinas ou levar suas crianças para cumprir com o calendário vacinal. E, por conta disso, as unidades precisam utilizar algumas táticas primordiais para completar o esquema vacinal desses pacientes.

Uma estratégia utilizada que se tornou bastante eficaz é a busca ativa. Ela acontece da seguinte forma: por meio do sistema de dados utilizado pelo SUS, o profissional de saúde localiza um paciente com o esquema vacinal em atraso e acessa os dados como contato telefônico e endereço. Se não conseguir falar com o responsável por essas informações, o profissional se desloca até a casa desse paciente para conferir o atraso na carteira de vacinação e aplicar a vacina ou orientar a comparecer à UBS. Esse processo de trabalho conta com o desempenho de vários profissionais.

O paciente também tem o seu papel. Em caso de mudança de telefone ou de residência, ele deve se dirigir, imediatamente, à unidade de saúde para atualizar o cadastro de sua família. Também é importante que o responsável saiba onde está guardado o cartão vacinal da família. A sugestão é que ele esteja em um local de fácil acesso para que não atrase o trabalho dos profissionais que precisam se deslocar para outras residências no mesmo dia.

Mas a busca ativa tem outro propósito além da captação dos não vacinados. Ela é usada também para aproveitar todas as doses do frasco de imunizante que foi aberto, no intuito de evitar que o restante das doses se perca após a abertura do frasco. Este tempo varia de 6 a 10 horas. Essa é uma forma de evitar o desperdício e vacinar quem precisa.

Atualmente, o SUS disponibiliza 19 tipos de vacinas para a atualização do calendário de rotina da população, todas de extrema importância para manter o controle e a redução de doenças imunopreveníveis e evitar mortes. Confira a listagem das vacinas disponíveis no SUS em: https://bit.ly/vacinasus2023

Ameaça de doenças do passado

Não são poucas as doenças que podem ser evitadas com uma simples e importante atitude: a vacinação. E para isso, a população pode contar com os serviços ofertados de forma gratuita pela Atenção Primária à Saúde (APS), também conhecida como a porta de entrada do Sistema Único de Saúde. A APS sempre utiliza estratégias de prevenção e promoção à saúde, com o intuito de melhorar a qualidade de vida da população.

Uma campanha que teve grande êxito foi a Vacina Maré, uma iniciativa da Fiocruz em parceria com a organização não governamental Redes da Maré e a Prefeitura do Rio. Mais de 30 mil pessoas foram vacinadas. Foi um verdadeiro mutirão de vacinação. A campanha alcançou grande parte da população da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e tornou-se referência para outros bairros. 

A Maré é um território composto por um conglomerado de bairros, favelas e conjuntos habitacionais, com cerca de 140 mil moradores. E para alcançar o esquema vacinal completo dessas pessoas, o SUS conta com os Centros Municipais de Saúde (CMS) e as Clínicas da Família, que cobrem esse extenso território. Atualmente, são sete postos da APS na região. Um deles é o CMS Vila do João, que tem mais de 33 mil pacientes cadastrados. Mas desses, 11.431 estão com a vacina em atraso. Entre esses pacientes, 335 crianças de até seis anos precisam atualizar o cartão de vacinas.

O Coordenador Geral da Atenção Primária, Thiago Wendel, responsável não só pela Maré, mas também por outros 27 bairros que pertencem à Coordenadoria de Saúde da Área de Planejamento (CAP) 3.1, diz que atualmente o município do Rio de Janeiro tem uma cobertura vacinal muito aquém da meta desejada pelo Ministério da Saúde. Segundo o coordenador, parte do problema acontece por causa da resistência da população em procurar a unidade para se vacinar. Um comportamento que aumenta a possibilidade do retorno das doenças já erradicadas no país, como aconteceu com o sarampo. 

A poliomielite, responsável por causar a paralisia infantil, também está deixando os profissionais de saúde em alerta. Devido à baixa na procura, a doença que não apresenta nenhum registro de caso há mais de 30 anos, pode retornar. “A gente quer vacinar a população para evitar que essas doenças que já foram erradicadas voltem”, afirma Thiago.

É importante que a população tenha consciência de que a falta dessas vacinas aumenta a probabilidade de casos e surtos. Os profissionais têm se articulado para aumentar a cobertura vacinal. Thiago conta que a CAP 3.1 tem desenvolvido algumas iniciativas para fortalecer o trabalho da atenção primária. “A nossa estratégia foi aumentar o número de visitas e de vacinadores”, esclarece. 

O coordenador explica que contratou novos profissionais no intuito de elevar esse quantitativo. Também aumentaram o número de agentes comunitários de saúde (ACS) de quatro para seis por equipe, porque são eles que conhecem o território e podem encontrar os pacientes que não se vacinaram. Outra contratação fundamental foi a de técnicos de enfermagem, que são os principais vacinadores. 

— Foto: ilustração digital de Felipe Plauska.

Comunicação e mobilização

Thiago destaca também o papel da atenção primária como a principal porta de entrada do SUS, que contribui para a redução dos gastos públicos em saúde, porque quanto mais se investe na área, mais se reduz os casos de internação e hospitalização. “A gente quer de fato melhorar a qualidade de vida e cuidar dessa população para diminuir o sofrimento. A gente já vacinou e tem condições de trabalhar. Então agora chegou a hora de apresentar a resposta para a população”, aponta. “Minha expectativa é estimular boas práticas, e fazer coisas boas para as pessoas se inspirarem”. 

O coordenador enfatiza a importância de outras ações no intuito de mobilizar a população para comparecer às Unidades de Saúde, como a divulgação por parte de redes de comunicação popular. Ele destaca ainda que esse apoio surte até mais efeito que os meios de comunicação de grande repercussão. “Mais do que divulgar na televisão e rádio, os dispositivos locais precisam fazer parte do processo”, ressalta.

Ele cita o trabalho das rádios comunitárias e de outras fontes de comunicação, como carro de som e iniciativas de associações de moradores e organizações não governamentais (ONG). Para Thiago, esse trabalho de divulgação popular e territorial tem um retorno melhor que qualquer outro.

Relato direto do território 

Sou agente comunitária de saúde há mais de 14 anos em uma das Unidades Básicas de Saúde administradas por Thiago: o Centro Municipal de Saúde da Vila do João, onde trabalham 77 funcionários. Quem está à frente da unidade é a gerente Patrícia Soares Augusto há, aproximadamente, um ano e seis meses. O serviço é prestado por seis equipes, formadas por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, seis agentes comunitários de saúde e profissionais da saúde bucal. 

Durante esses anos, realizei diversas buscas, algumas delas com o enfermeiro Severino Raminho. Quero destacar uma que me deixou bem feliz por conta do seu desfecho. A busca ativa foi realizada na casa de uma senhora que tinha medo da reação da vacina contra covid e por esse motivo não compareceu na data marcada para receber o reforço. 

Após o nosso trabalho de conscientização e incentivo, a paciente entendeu a importância de se imunizar. A vacina foi aplicada na mesma hora, em sua residência, e ela ainda nos permitiu filmar a aplicação da vacina e publicar nas redes sociais da unidade de saúde. Com o trabalho executado, retornamos para a UBS com a sensação de dever cumprido, pois mais uma paciente ficou protegida contra a covid-19.

A odontologia também atua na busca ativa. O dentista Márcio Leon é um dos profissionais que apoia o nosso trabalho, como na captação oportuna dos não vacinados durante as visitas domiciliares. Um exemplo foram as visitas que realizamos com a presença da vacinadora, a técnica de enfermagem Jacira Ribeiro da Silva, para a aplicação da vacinação contra a covid nos idosos restritos ao lar ou acamados. Todas foram realizadas com sucesso, já que esses pacientes estão sempre presentes em suas residências, devido à dificuldade de locomoção.

Durante as visitas às residências, foi verificado o status vacinal de cada família. Ao identificar atrasos, foram feitas as orientações ao responsável da família no intuito de conscientizar quanto à importância de pais e responsáveis estarem atentos às datas marcadas de lápis no cartão vacinal, que sinalizam o retorno da criança dentro do prazo. 

Uma das casas em que realizamos este trabalho foi a de Indiara Rodrigues da Costa, 44 anos. A busca foi feita por causa do atraso no cartão de vacina de sua filha. A responsável conta que não tinha levado seu bebê para vacinar porque estava resfriado. Ela foi orientada e ficou satisfeita com a visita. “Acho que ter essa atenção nas vacinas é muito importante. Quando um agente se preocupa, nos chama mais atenção em manter todas as vacinas em dia”, afirma a mãe.

Jacira relata que sempre orienta as mães sobre a necessidade e a importância das vacinas, explica para que serve cada imunizante e enfatiza ao responsável quanto aos riscos que a criança corre quando a vacina não é aplicada no prazo. “É melhor furar o filho e ele chorar do que depois ele ficar com uma doença”, constata. 

A técnica revela uma situação curiosa que aconteceu durante uma de suas visitas domiciliares, em que a mãe falou que tinha perdido o cartão do filho. Porém, após a insistência da profissional, a mãe disse que só tinha um papel, que a técnica pediu para ver. Era o próprio cartão de vacinação do bebê que, como já era de se esperar, estava com a vacinação em atraso. Jacira então orientou a mãe a comparecer ao posto de vacinação alguns dias depois. A mãe levou a criança, que foi vacinada. “E mais uma busca ativa foi bem-sucedida”, lembra a técnica de enfermagem.

A busca também acontece por contato telefônico ou mesmo por WhatsApp, quando necessário. Isso ocorre com frequência com uma família que eu acompanho. Trata-se da paciente Jéssica Corlet Menezes, de 26 anos. Ela trabalha muito e tenho muita dificuldade em encontrá-la em casa, mas isso não me impossibilita de realizar esse monitoramento. 

Pelo menos uma vez por mês, nós nos comunicamos por WhatsApp e peço que mande uma foto comprovando a vacinação, sempre que atualizada. A paciente fica muito satisfeita, pois assim acaba se lembrando de olhar a caderneta do filho. Ela sempre me agradece. “Para mim o serviço de vocês é excepcional, porque às vezes a gente acaba esquecendo, com a correria da vida, trabalho, casa, criança e tudo mais. Como você sempre me lembra das vacinas, consigo deixar em dia”, relata Jéssica. “O serviço de vocês é maravilhoso. Se não fosse por vocês, ficaria difícil”.

Mais uma paciente contente, outro sucesso da operação busca ativa. E o trabalho não para, vamos continuar na luta pelo aumento das coberturas vacinais em todo o país, um grande desafio de nosso tempo!

* Elaine Lopes é agente comunitária de saúde e criadora do blog “Na Onda da Maré”.
Comentários para: Vacinação ativa

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