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O nome de Neusa Muniz da Silva decora um dos 74 azulejos do Memorial da Covid, na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O azulejo com seu nome foi pintado pela neta Laíza e pelo bisneto Nicholas no projeto criado pela organização Redes da Maré para homenagear e dar significado à vida de pelo menos 400 moradores de uma das 16 favelas da região que se foram na pandemia de covid-19.

Todos os dias, na ida e volta do trabalho, Laíza Diniz da Silva passa em frente ao memorial, na rua Bitencourt Sampaio, e seus olhos encontram o painel com o azulejo Neusa Diniz, escrito em azul em fundo branco. “É Muniz”, repetiu Laíza algumas vezes na entrevista à Radis, alertando que, no azulejo, foi gravado o seu próprio sobrenome. Ao passar pelo memorial ela diz que sente a companhia da avó. “Parece que eu estou entrando [em casa] com ela e indo trabalhar com ela. É bom ter essa memória”, comenta.

Neusa Muniz da Silva, a avó, era uma referência familiar. Tinha a saúde comprometida pela idade, pela luta na vida, por um câncer operado 20 anos atrás e por uma metástase, como Laíza soube depois. Era primeiro de maio de 2020, início da pandemia, quando dona Neusa sentiu cansaço e falta de ar. Naquele momento, a doença trazia mais dúvidas do que certezas. Ela foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Não ficou boa. Dois dias depois, seguiu para o Hospital Pedro Ernesto, no bairro de Vila Isabel, onde fazia tratamento para nódulos na garganta, e foi internada.

A avó se despediu da neta no saguão do hospital. “Minha filha, eu não volto mais”, Laíza ouviu. A neta recebeu alguns pertences da avó e, a partir daí, seu percurso foi o mesmo de tantos brasileiros que tiveram que equilibrar a vida e os sentimentos durante a internação de um familiar por covid-19, especialmente no congestionado sistema público de saúde, que funcionou além de sua capacidade devido à alta disseminação do vírus da covid.

Neusa foi intubada e permaneceu em cuidados intensivos. Como as visitas estavam proibidas, a neta acompanhava as informações clínicas por telefonemas. “Ligavam algumas vezes à noite para dizer como ela estava, se fez hemodiálise, se saiu do CTI, para a gente saber algo. Não era todo dia”, lembra.

Em 11 de junho de 2020, o celular de Laíza tocou e um funcionário pediu que ela levasse documentos da avó ao hospital. “Eu sabia que ela tinha morrido porque eu já tinha deixado alguns documentos dela com eles”, lamenta. A paraibana Neusa Muniz da Silva, de 78 anos, estava entre os quase 69 mil brasileiros que não resistiram à covid naquele mês.

A notícia do óbito foi dada sem o acolhimento necessário no processo da morte e no morrer. “Eu lembro que eu estava chorando muito. A médica falou: ´Não adianta chorar, para o espetáculo’. Eu tinha perdido a pessoa que me criou, não tive pai e mãe e essa médica falou comigo desse jeito”, disse para Radis, ao telefone, em um choro contido.

O corpo de dona Neusa Muniz da Silva foi reconhecido por um familiar, devidamente protegido, no IML do próprio hospital. Saiu em um caixão lacrado e envelopado direto para o cemitério. Era início da pandemia e as restrições proibiam aglomerações, pois, naquele momento, a Ciência ainda buscava respostas sobre a infecção e a transmissão do vírus. De acordo com Laíza, poucas pessoas acompanharam a despedida. “Foi tudo muito rápido. Eu pedi para tocar no caixão. Toquei, orei e cantei para ela. E foi isso”, contou.

Três anos depois, a saudade está presente no dia a dia e as feridas continuam abertas. Laíza sente culpa pela infecção da avó. “Saí para curtir o Carnaval naquele ano e na minha cabeça eu acho que transmiti [o vírus] para a minha avó” — o que não seria possível, devido à distância das datas.

“Tem momentos que eu penso que poderia ser diferente. Deixei a minha vó falando, respirando, e ela não saiu [viva] de lá”, conta. O falecimento da avó desestabilizou a família. “Eu engordei, tive sensação de abandono, enfrentei problemas com meu filho mais velho que juntou a raiva pelo que aconteceu com as coisas da adolescência. Hoje está tudo bem”, resumiu.

Laíza perdeu o emprego quatro meses depois que a avó faleceu e a insegurança alimentar bateu na porta de sua casa. A aposentadoria de Dona Neusa era importante para o sustento familiar. “A gente juntava o que ganhava e ela tinha um jeito de fazer sobrar. Foram meses difíceis, minha família passou muita necessidade. Houve momentos em que só tinha angu para comer”, lembra.

A fome foi mais uma face violenta e de cessação de direitos gerados pela pandemia, que escancarou o fosso das desigualdades sociais e econômicas e separou os que tinham comida na mesa e os que nada tinham em cima dela. Na casa de Laíza, a comida voltou por meio da cesta básica fornecida durante 5 meses pela organização Redes da Maré, que distribuiu cestas de alimentos, kits de higiene pessoal e de limpeza aos moradores do Complexo.

Em outra frente, Laíza teve atendimento psicológico na organização, o que a ajudou a entender melhor a morte da avó e o seu processo de luto. Encontrou também apoio na prática religiosa do candomblé. Sobre a conversa que teve com Radis, disse: “É uma coisa gostosa e dolorosa conversar. Minha avó fez tanto bem. Dói saber que eu não tenho mais ela aqui”.


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